domingo, 3 de setembro de 2017

Gravidez aos 40: Puerpério - o que me (a)guarda

É evidente que o mais importante é o fato de a mãe e o bebê estarem bem, independentemente do tipo de parto, ou da cirurgia, ou se foi um processo de adoção, porque a avalanche de mudanças que a ligação entre mãe e filho traz a rebote é capaz de fazer trincar o templo Ankor Wat, no Camboja. 
Sei que inúmeras mulheres passam por situações difíceis logo após o nascimento do bebê, seja por questões pessoais de saúde, seja porque o bebê teve dificuldades de quaisquer ordens. No meu caso, foi tudo melhor do que o imaginado! 
Então aguardo, de atalaia, o efeito do pós-parto. 
As esperadas sensações puerperais imensamente discutidas nos encontros de gestantes não chegam no dia do nascimento do bebê. Elas chegam sorrateira,  alguns dias  depois.
De acordo com a minha experiência, elas caíram do céu, enquanto eu estava relaxadamente fazendo pipi, antes de ir para a cama. Eu havia acabado de amamentar. Eu sentia os seios quentes e duros, feito pedras. Entretanto, só pensava em fazer pipi. Então, fiz. 
Não sei descrever ao certo. Sei que me levantei do sanitário e senti um arrepio, daqueles de arrepiar o couro cabeludo. Nesse momento, fiquei confusa. As luzes da casa estavam apagadas, pois a nossa filha já dormia; o silêncio e a escuridão deviam imperar, sob qualquer custo. O arrepio transformou-se em tremedeira. Eu estava de calcinha e sutiã. Senti frio. Um frio fora do comum. Saí do banheiro, tateando as paredes e andando com dificuldade, a tremedeira havia atingido o meu queixo. Meu marido estava no quarto. Era para lá que eu me dirigia. 
- Preciso dar mais três passos - falei comigo mesma. Pensei no meu anjo da guarda. Procurei palavras carinhosas para lhe dizer, mas não as encontrei. A sensação foi um tanto quanto sobrenatural. - Esconjura - foi a palavra que balbuciei.
Enquanto eu dava os três passos para chegar ao quarto, um faixo vindo do céu, ou melhor, dois faixos encheram ainda mais os meus seios, que já estavam duros. Cheguei ao quarto, pensei em chamar meu marido, mas decidir primeiro abrir a gaveta da cômoda e vestir todas as roupas que vi pela frente. A tremedeira e o frio não passavam. Meu marido estava sentado na cama, lendo, quando o chamei abruptamente.
- O que houve? - perguntou assustado, vindo até mim.
- Acho que vou morrer de frio! - falei tremendo o queixo e me abandonando nos braços dele. Ele me deitou na cama e me embalsamou com as cobertas que tínhamos. 
- Cuide da nossa filha, por favor - disse-lhe tremendo e em tom sério, porque comecei a imaginar cenários dramáticos, sem precedentes.
- Vou enviar uma mensagem para a doula. Ela comentou algo sobre febre de leite, no dia do parto - disse ele e me trouxe um termômetro. 
Meu marido conversou com a doula por WhatsApp e ela disse que monitorássemos a temperatura e que nos visitaria pela manhã cedo. 
Pedi ao meu marido que me abraçasse forte e me fizesse um cafuné. Eu queria que ele me segurasse na Terra. Cheguei a pensar que estava flutuando no espaço sideral, num bloco remanescente de gelo da Antártida. 
Quando a nossa filha chorou, meu marido a trouxe até mim, e eu agradeci aos céus, por poder esvaziar um pouco o peito. Entretanto, a produção de leite não parava e os seios esquentavam e permaneciam duros. 
Era madrugada, quando me lembrei da carta que escrevi às glândulas mamárias, pedindo uma produção de leite sem limites. Em algum momento inexato, tomei coragem, levantei da cama e escrevi uma nova carta, explicando a minha situação e pedindo misericórdia.
Pela manhã, o frio havia passado, mas os seios continuavam duros feito pedras. Eu não conseguia imaginar como iríamos resolver aquela questão, porque eu não queria tomar remédio, enquanto estivesse amamentando. 
A doula chegou cedo acompanhada da sua bolsa Mary Poppins, e, de lá tirou um quilo de arroz cru, dois sacos zip e uma máquina de tirar leite.
- Por favor, ponha o arroz no freezer - pediu a doula ao meu marido, enquanto examinava os meus seios. - Acho que vamos ter que fazer uma massagem, porque do jeito que está, o leite não vai sair na máquina - ela complementou.
Não saiu mesmo, apesar das nossas tentativas. O meu seio estava empedrado. A doula fez a massagem e mostrou ao meu marido como fazer. Ela tentou me explicar como fazer sozinha, porém senti tanta dor que admiti não ter condições de exercitar essa tarefa sem auxílio. Finalmente, a massagem dela diluiu as pedras de leite e pudemos ordenhar à mão, para somente depois utilizarmos a máquina. Quando a doula percebeu o meu alívio, ela pediu que enchêssemos os dois saquinhos zip com arroz. Assim o fizemos. Então, ela os posicionou no meu peito e a quentura passou. Passei os dias subsequentes ainda ordenhando, porque a produção de leite seguia um ritmo acelerado até que estabilizou. 
Esses percalços físicos foram os primeiros indícios de que a avalanche de emoções estava apenas começando.
O puerpério é uma sensação de estar sozinha, inteiramente sozinha, completamente sozinha, embora se tenha pendurado no peito um serzinho capaz de sugar a sua alma, e, ao mesmo tempo lhe apresentar um amor tão puro, que mais se assemelha à graça divina do que ao mais verdadeiro amor que fomos capaz de sentir até ali. 
Depois de uma semana do nascimento da minha filha, meu primeiro pensamento foi: 
- Como as mães vivem? Sem dormir, sem tempo para tomar um banho relaxante, para comer calmamente? Isso sem falar, na mudança hormonal, nas alterações do aspecto físico, sem assistir a um filme, sem ler, escrever, ou fazer qualquer atividade que nos tire um pouco da dura realidade de estar físico e emocionalmente disponível para o novo ser, sem poder dizer “aguarde um pouco, só preciso dormir a noite inteira, meditar, ler um pouco, fazer uma atividade física, ir de vez em quando ao cinema, conversar com as amigas, fazer algo criativo que voltarei revigorada para cuidar de você. 
Nesse início, ser mãe é ter capacidade de renunciar ao mundo, além de praticamente renunciar ao próprio corpo.
A realidade de ser mãe é dura como uma rocha, especialmente quando tudo que se teve a esse respeito foram doces sonhos e propaganda enganosa. 
Para mulheres da minha geração, esse início pode parecer enlouquecedor, porque o nosso mundo foi alicerçado no trabalho fora de casa, no desempenho e na performance; e o trabalho de casa não tem qualquer reconhecimento nem garantia, no curto prazo, que ele foi bem feito, ou que é sequer um trabalho.
Para a minha geração, o trabalho, no geral, sempre foi mais interessante do que a vida doméstica; o lúdico está fora de casa e não dentro. Temos, pelo menos eu tenho, que aprender a redescobrir a graça na vida ordinária.
Logo no início do período do pós-parto, o eu cheio de teorias, de energia e de projetos, que tinha certeza de tantas coisas, está confuso, porque ele só pensa no outro. E agora? 
Agora me sinto perdida, porque todo aquele eu está diluído em diversos arquivos lançados em algum lugar secreto da alma. Aparentemente, perdi a identidade e a nova pessoa, para construir a sua autoconfiança, precisa mergulhar num mar desconhecido e renascer. 
- Como vou me suceder? Serei uma boa mãe? E a mulher, dentro dessa nova pessoa, ainda tem desejos próprios? Será que ela vai viver no estado, no qual só o outro importa? Será que ela vai sobreviver? Como será a vida de casada? O marido e ela continuarão apaixonados um pelo outro e pela nova vida?
Observando de perto, saiu de cena uma viajante autônoma e aventureira, que tinha tempo para tudo, lia um livro atrás do outro, e entrou uma mãe de primeira viagem, que tem endereço fixo, e, que para manter a mente sã precisa resgatar sua individualidade, como se comprometeu.
Nesse período, a solidão é realmente espessa. Se não houver equilíbrio,  é possível sentir desespero. É tão espessa que os pensamentos emudecem e um espaço em branco toma de conta. 
Inicialmente eu não sabia o que fazer com todo o novo espaço vazio. Cheguei a pensar em culpar meu marido. Mas ele estava tão presente que derrubou qualquer tentativa de ataque contra ele. Quanto mais eu reclamava com ele, mais carinhoso ele se tornava comigo. Isso ajudou-me a despertar a minha própria compassividade, o que me fez voltar a frequentar o grupo de grávidas, no qual várias mães falam abertamente sobre a solidão do pós-parto. 
Mas como ia dizendo sobre o espaço vazio, sempre quis ter uma chance de recomeçar numa folha em branco, ser uma pessoa melhor... E agora diante dessa oportunidade, sinto um coquetel de alegria e desconforto, uma espécie de felicidade exaustiva, e, ao mesmo tempo, uma magnificente gratidão por toda essa experiência e pelo o que estar por vir.
A questão agora é administrar uma rotina intensa de tarefas aparentemente prosaicas, com poucas horas de sono, e entrar em contato com as emoções contraditórias do início da nova jornada.
Como tenho dormido pouco, desde que sou mãe, não sei se estou sonhando enquanto durmo, ou se estou sonhando acordada. Mas imagino o puerpério como uma casa grande cheia de portas a serem abertas e exploradas. 
Cada porta leva para salas, quartos e corredores das mais variadas sensações. Sala de luto, quarto de culpa, sala de alegria, corredor de segredos e quartos de uma fonte inesgotável de energia, que a mãe descobre ao começar a cuidar do bebê. 
Passando por uma dessas portas, entrei num ambiente sombrio; deve ser a sala da rejeição, pois pensei nas pessoas que não gostam de mim; pensei também nas minhas médicas. Foi somente depois de alguns dias do parto que lhe informei sobre a minha decisão repentina de parir em casa.  É possível que a minha médica tenha se chateado com a minha decisão. A sensação de que ela não gosta mais de mim abalou aquela velha ilusão do desejo de ser querida por todos, de não gostar da ideia de que alguém de fato não goste de mim, ou não vá com a minha cara. É possível que a minha médica nem se lembre de mim, e, que essas ilações sejam pura fantasia da minha cabeça. É provável que se eu permanecer nessa sala, vou encontrar mais motivos para ficar triste. Então, lentamente ando até a porta de saída, para não chamar mais atenção dos meus pensamentos.
“Não fique isolada” estava escrito na parede ao lado da porta. Ao ler a mensagem, lembrei-me da minha amiga psicóloga que, durante a minha gravidez, falou sobre o baby blues do pós-parto. O baby blues é uma sentimento de solidão triste no pós-parto, por mais que se receba visitas, nem todos compreendem haver um pouco de tristeza num momento tão exultante da vida. Quando se sentir só e triste, divide o seu sentimento com outra pessoa que já passou por isso - a amiga psicóloga alertou bem antes do parto. 
Caminhando um pouco mais adiante, entrei no cômodo, que se assemelha a uma sala de banho e observei que o desejo sexual não diminuiu no pós-parto. Ele desapareceu. Era como se eu nunca tivesse sido uma adolescente cujos hormônios transpiravam sexualidade; como se sexo nunca tivesse existido.  Só me lembrei da importância desse cômodo, quando aceitei receber visitas amigas, e uma delas narrou empolgada suas aventuras, pedindo conselhos de todas as ordens. 
Senti que o assunto era familiar, mas não me lembrava de detalhes. Era como reencontrar uma amiga importante da adolescência e não se lembrar do nome. É uma sentimento angustiante. Nunca havia passado tanto tempo sem pensar em sexo como nos dias do pós-parto. Cheguei a me perguntar se um dia teria interesse sexual de novo. 
Enquanto a minha amiga narrava os detalhes lascivos da sua aventura, minha mente tentava decifrar que idioma ela usava, do que era feito essa maravilha que, por mais detalhado que ela descrevesse, não chegaria aos pés das novas emoções, que eu estava sentindo em relação à minha cria. 
A questão não é sentir prazer, é ter vontade de sentir aquele prazer sexual, quando tantos outros têm prioridade, neste momento totalmente novo. Além disso, existe uma verdade sobre a qual ninguém tinha me falado. A falta de desejo sexual não ocorre em razão do ciclone físico e emocional pelo qual estamos passando,  ela ocorre em função do éden que estamos experimentando. O prazer que a mãe sente de estar perto do bebê é pleno. Não precisamos de mais nada. Não cabe mais ninguém. Foi difícil admitir isso para mim. Ter isso claro fez com que eu compreendesse como era possível casais com filhos pequenos tornarem-se dois estranhos, ou dois irmãos, dois amigos, ou inimigos; como é compreensível aquele argumento que o amor transforma-se em companheirismo e cumplicidade e que sexo deixa de ser tão importante. 
Embora eu sinta o éden da maternidade e desdenhe, no momento, qualquer outra coisa, pretendo resgatar o play ground dos adultos onde quer que ele esteja. Não casei com amigo, nem com inimigo; ele pode até me parecer um estranho agora, mas ele continua sendo o homem que eu amo. 
No entanto, a libido não se dá ao trabalho de agir se nós não agirmos, e admito que para quem pretendia passar longe do estereótipo de piada, eu me senti personagem de uma delas, o que me incomodou. Então lembrei que posso suportar menos dinheiro, menos tempo, menos sono, menos liberdade, menos privacidade, menos intimidade física, mas não abro mão da comunicação honesta, porque ela sempre pode nos salvar. Por isso, conversei com o marido sobre o assunto, para antecipar que o retorno à vida íntima não seria fácil nem automático após o período de resguardo, mas que eu gostaria de tê-la de volta, mesmo sem fazer ideia de como resgatá-la. Acho que ele leu sobre o tema, pois ao invés de estar atrás de mim com o calendário na mão, dizendo “é hoje”, ele me propôs voltarmos a namorar, como se nunca tivéssemos tido nada antes. Depois da nossa conversa, confesso que a mera inquietação, pela incerteza de como seria daqui para frente, indicou que o erotismo ainda mora na nossa casa. Precisamos, entretanto, querer enxergá-lo. 
Apesar do nosso esforço diário de sermos carinhosos um com o outro, o resultado estava aquém do que ambos esperávamos. Foi então que decidi perguntar para as amigas mães recentes como elas tinham superado esse percalço. Todas, sem exceção, assumiram que tiveram que resgatar outros prazeres antes de sentir o erotismo na pele novamente. Uma delas sugeriu que fizéssemos uma lista de três coisas que nos davam prazer, independentemente da vida sexual e do novo éden com o bebê. Ela complementou, dizendo que provavelmente não estávamos a exercitando e isso dificultava a volta à intimidade física. 
- Como teríamos prazer com o parceiro se não tivéssemos prazer sozinhas? - ela perguntou, para em seguida, afirmar que se fizéssemos algo especial para cativar a nossa individualidade, a libido sairia do seu esconderijo. 
A lista de cada uma indicava as necessidades básicas das nossas personalidades. A autora da ideia escreveu: meu vinho, minha música e minha dança. Uma outra estabeleceu: yoga, interagir com as pessoas e praia. A minha: ler, escrever e caminhar. De fato, desde o nascimento do bebê, eu não havia lido nem escrito nada; caminhava todos os dias, empurrando o carrinho, mas os dois primeiros prazeres tinham sido deixados de lado. Estava cristalino que eu precisava dedicar um tempo diário só para mim, e foi o que comecei a fazer, depois de uma dose de conversa a dois e estabelecidos os meus horários livres. Funcionou, pois algumas semanas depois, talvez tenham sido várias semanas de deserto sexual, invadi o banheiro enquanto meu marido tomava banho, coloquei os braços ao redor do pescoço dele e lhe disse baixinho:  quero ser dois e ser um.   
Voltando à grande casa cheia de portas e cômodos, num dos quartos, que entrei, observo dois espelhos refletindo cenas idênticas, porém os resultados dos sentimentos não coincidem. Numa delas, eu me divertia com as tarefas ordinárias, na outra, sofria. Levei um tempo para compreender que a forma como eu reagia internamente, diante daquelas situações, mudava a realidade das cenas especulares. 
- Sim, posso escolher - compreendo a mensagem e me esforço para fazê-lo. Repito, em voz alta, para mim mesma.
Passei pela sala de perdas, e, fiz uma reverência com a cabeça. Diante desse cômodo, visualizei a oportunidade de praticar aquela transformação de eventos julgados como ruins em sentimentos positivos. Então, resolvi entrar e me concentrar. Lá conversei com todos os seres que participaram da minha vida e partiram, sem se despedir. Falei o quanto os amo e o quanto as experiências que os envolveram ajudaram a me tornar uma pessoa mais inteira e mais carinhosa.  Conversei também com as pessoas que me magoaram e com as que magoei. Expliquei o meu intento de transformar tudo aquilo em sentimentos positivos, realizando pessoalmente a magia da vida! Senti uma especial leveza e me vi flutuando no amor puro, que acabei de conhecer no nascimento da minha filha.
Na sala do medo, visualizo novos personagens. Medo de que aconteça alguma coisa com a minha filha e eu não possa mais vê-la, medo de fazer algum mal a ela, medo que algo aconteça ao meu marido e aos familiares queridos, medo dos meus pensamentos sombrios, medo da minha variação de humor, medo da minha dose de loucura, medo de perder a memória e o vigor físico, medo de perder a fé na humanidade, medo de me tornar uma pessoa sem entusiasmo, medo de não tentar realizar os meus sonhos e medo de me acomodar. Cheguei a sentir angustia, a pensar em voltar a trabalhar imediatamente, fazer um seguro de vida, economizar para a faculdade e terapia da minha filha; quando me vi, os olhos estavam lacrimejando. Respirei fundo e me lembrei de ser carinhosa comigo. Então, ainda na sala, olhei compassivamente nos olhos de todos eles e disse em tom de paz: é hora de dormir. Fechei a porta e saí, deixando ali a minha ansiedade. 
No corredor de segredos da grande casa, reconheço enfileirados os meus projetos pessoais, alguns fracassos, alguns êxitos e o vislumbre de que a chance de recomeçar poderia demorar a chegar. Estão todos ali aguardando a minha decisão de iniciar um deles para manter a sanidade, antes que a nova avalanche emocional da maternidade recaia no momento da minha subida à montanha mais alta do mundo. Então, peguei um caderno novo e escrevi um termo de compromisso, datado e assinado. 
Tenho, desde então, enchido o caderno de ideias, no pouco tempo que tenho livre. Acredito que eu tenha um constante trabalho em progresso. Isso me cativa, porque combino uma vida pessoal doméstica exclusiva e exaustiva, trocando fraldas, amamentando, dormindo pouco, com uma vida interior de experiências imaginárias. 
Se por um lado, o pós-parto é uma travessia tortuosa, por outro, pode ser uma oportunidade para lidar com uma fonte de energia inexplorada. Aquela energia que cura e traz um aprendizado inestimável. 
Tenho aprendido a pedir ajuda! Nós mulheres somos ótimas em oferecer ajuda mais do que em pedi-la!
Tenho aprendido a deixar claro os meus limites.
Tenho aprendido que não preciso ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa, a profissional mais competente e a melhor dona de casa, para ser amada e respeitada;
Que está tudo bem se nem todos me admirarem; está ok se alguém não gostar de mim.
Voltei a vigiar meus pensamentos e não permitir que eles façam conclusões e saiam ditando as regras da minha vida, nem destruam os meus relacionamentos. 
Aprendi que posso errar e que errar é o jeito mais eficiente de aprender.
Tenho aprendido a me perdoar e a perdoar quem não me perdoa. Aprendi a perdoar até quem não gosta mais de mim. Isso é libertador.
Aprendi que posso ser generosa com os meus sentimentos, ao invés de esperar que alguém os reconheça. Decidi que posso dizer: “olhe, fiquei chateada por você não ter retornado a minha ligação, quando eu precisava falar com você. Mas entendo que você esteja ocupado!”
Na sala de espelhos, redescobri prazer nas coisas simples: tomar café, tomar banho, lavar o cabelo, dormir etc. A vida ordinária tem seus requintes e segredos.
Aprendi a dizer que estou ocupada na hora do meu lazer de ler.
Aprendi que a vida é minha melhor amiga.
Aprendi que não preciso ser complacente para ser querida.
Aprendi a gostar das partes do meu corpo que não voltaram a ser como antes, e, a gostar das partes que antes não gostava.
Aprendi a usar o tempo e o espaço do pós-parto para criar algo, ao invés de permitir que o seu lado sombrio destruísse o meu relacionamento comigo e com as pessoas que amo. 
Aprendi que meu corpo é minha língua nativa. 
Compreendi a semiótica do puerpério; ele pode ser uma porta aberta para diversos cômodos, alguns mais sombrios, outros luminosos, entretanto, sempre poderemos escolher em qual deles entrar.
Desde que me tornei mãe, desejo que o mundo melhore rápido. Não estou falando em termos de política-econômica, pensei em termos amorosos. Por essa razão, passei a desejar a todas as pessoas próximas ou neutras que gozassem da raiz da felicidade e que se livrassem da raiz do sofrimento. Quero amar mais. Amar todos os dias, todas as pessoas, preencher essa solidão com amor e gratidão aconchegante. 
De dentro de um desses cômodos, nasceu o projeto pessoal de registrar os detalhes da minha gestação. Acho que cheguei tão perto de como tudo aconteceu, que me peguei com saudade da sensação daquela bola quente saindo de dentro de mim!

Foi, então, que renasci.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Gravidez aos 40: mente e coração unidos

19 de julho de 2015
36 semanas 
Apesar do tamanho da barriga, eu ainda me movimento bem, subo e desço escadas com facilidade e me sinto disposta. No entanto, já não abotoo as sandálias com facilidade. A barriga está baixa e parece ter vontade própria; ela mexe e remexe. Ela dita as roupas que nos cabem e os adereços que podemos usar. Preciso organizar as roupas para os próximos eventos. 
A doula recomendou que deixássemos as bolsas da maternidade prontas, evitando um corre-corre de última hora. Então, seleciono o que ainda cabe em mim sem sofrimento. Paro e penso o quanto arrumar mala de hospital tira um pouco da minha tranquilidade. Não gosto de arrumar mala, por vários motivos. Temos que prever quanto tempo iremos ficar. Temos que aceitar a hipótese de ter que ficar mais tempo, para caso de algum imprevisto. Temos que pensar em hipóteses tristes.
Aprontei uma mala com o que julguei como básico, mentalizando que voltaria para casa imediatamente. Porque se algo triste ocorresse, alguém viria à minha casa e pegaria mais roupas. Deixo a mala semiaberta para inserir outros itens, caso seja necessário.
A doula e a médica sugeriram também que visitássemos as maternidades e hospitais, para conferir sobre planos de saúde e conforto pessoal. Qual deles o elegeríamos para o parto. Não gosto desses lugares. Nunca entrei num hospital, a não ser para visitar alguém que estimo. 
No grupo de grávidas, havia mulheres que tinham tido boas experiências em  determinados hospitais, e outras nem tanto. A verdade é que sempre que posso, evito hospitais.
Por isso, inventei várias desculpas e não visitei os hospitais e maternidades. Perguntei à minha médica, qual seria a melhor opção para mim, em termos de maternidade. Aceitei a sugestão da médica, comuniquei à minha doula e encerrei o assunto.



26 de julho de 2015
37 semanas
Além da questão de a mala ter que estar pronta, prevendo eventual estada a mais no hospital, há outra razão para estar com os nervos à flor da pele: vamos receber visitas de um amigo gringo e da respectiva filha. Meu marido os convidou quando eu ainda estava na 12a semana, momento no qual os hormônios estão aparentemente sob controle.
Eu havia esquecido que tinha concordado em receber visitas no estado atual da gravidez. Para falar a verdade, eu não havia concordado, eu cedi. 
De um modo geral, no diálogo entre as pessoas, há o que é dito, o que não é dito, e o que é dito através do silêncio, gestos, tons e comunicações subliminares. Entre casais, isso é ainda mais evidente. Achei que pela comunicação subliminar, tivesse ficado subentendida a minha insatisfação e que ele desistiria de receber os amigos gringos. Isso não ocorreu. 
Por que as coisas são sempre diferentes do que deveriam ser?
Atualmente, a minha sensibilidade parece atingir o seu próprio auge. Não quero fazer sala, nem ter que ser cicerone de quem quer que seja. Está na cara. 
Minha irmã vem ao Rio com a filha para participar de uma meia maratona. Ela vai ficar na casa do meu irmão, e pretendo estar com ela pelo tempo que for possível.
Sinto uma necessidade de estar cercada de mulheres, conversando sobre nossos segredos mais íntimos, sobre aquelas perguntas sem respostas, que nos fazem, porém, refletir sobre a nossa própria existência. 
A respeito da minha insatisfação em receber visitas, escrevi um longo e-mail a uma sábia amiga búlgara, que tem o dom de nos desencantar dos nossos próprios dramas; uma reflexão pronunciada por parte dela tem sempre um tom prático. Então pensei no que ela me respondeu e tomei uma decisão.
Tenho que deixar claro para o meu marido o que sinto. Ele deve estar no quarto. Vou ter que esclarecer esses pontos com ele! Olhei-me no espelho, não para arrumar o cabelo, mas para preparar o espírito, pois penso muito antes de falar. Essa é a minha melhor ventura. 
...Atrapalho? Sei que você está lendo... Mas o que tenho pra falar é importante... (Temos o hábito de ler antes de dormir; fazemos uma espécie de biblioterapia). Vou dizer que é um absurdo receber um gringo a essa altura. Não. Vou dizer que foi um descalabro. Preciso usar uma palavra chocante. 
...Você não pensou em mim, não pensou em nós, quando resolveu receber os seus amigos gringos. 
...Não, não concordei, aceitei, porque não tinha outra alternativa. E tem mais (vou começar a segunda parte da minha fala nesses termos), você tem que entender o meu estado. 
...Não, não estou passando mal. Se eu fosse outra pessoa, isso daria em separação. 
...Não vou mais falar nada do que estou sentindo. Vou embora. 
...Isso. Não vou deixar você ver o parto! 
...Sim, é o fim do mundo, sim. Pra mim, pelo menos. A gente tem que avaliar se vale a pena ficar junto. 
Depois que li os meus pensamentos escritos no papel, tomei ciência do recheio de desvario contido neles. Observei também que eles gostam de um drama. Às vezes, penso que meus pensamentos estão tentando me convencer a destruir meu relacionamento. Se eu falasse tudo que passa pela minha cabeça, os meus relacionamentos estariam correndo sérios riscos.
- Amor, preciso dizer o que estou sentindo. Não estou disposta a fazer sala para gringos. Quero ficar com a minha irmã e com as minhas amigas - foi o que disse, afinal, depois de passada e anotada a torrente de pensamentos. 
Essa novidade não é recebida com entusiasmo, observo. Porém, não estou disposta a abrir mão de mim para agradar ninguém. Então, chegamos a um acordo: ele receberá os gringos, e, eu ficarei uns dias com a minha irmã e com as umas amigas, ao longo da semana, e, no final de semana eu voltarei para casa.
Honestamente, gostei de ter respeitado a minha individualidade e de ter admitido que não faria concessão desta vez.
Não sei se por conta dos hormônios, disse não sem sentir culpa alguma. Não quero ser a mulher maravilha nem a esposa perfeita. Tenho observado que a imperfeição deixa-me mais livre para desbravar, explorar e me conectar com o que sinto!






30 de julho de 2015
37 semanas e  quatro dias
Fiquei uns dias com a minha irmã e uns dias na casa de uma amiga cineasta, feito adolescentes. A minha irmã, apesar de mais nova, é sábia; conversar com ela é como conversar com um oráculo, pois ela tem a capacidade de revelar algo que está escondido dentro do meu coração. A cineasta é praticamente feita de sonhos. Desde nova, ela tem o poder da eloquência, pois criava filmes e convencia os amigos participarem como personagens. 
Durante esses dias, conversamos sobre a minha decisão de ficar com elas, sobre culpa e sobre o peso que nós mulheres nos impomos. 
Conversamos também sobre nossos relacionamentos com nós mesmas e umas com as outras; confabulamos sobre viver a nossa verdade mais íntima, sobre a conexão com as nossas emoções e sentidos, e como a nossa cultura desdenha essas características, levando o nosso poder, muitas vezes, à invisibilidade até para nós mesmas; e, finalmente, falamos da potencialidade do poder feminino individual e em grupo. 
Acredito que eu precisava compartilhar hormônios e poder, e, também tornar ainda mais visível, para mim, as nossas características de sensibilidade, intuição, empatia e capacidade de entrega. 
Desde os dias que passei com elas, eu me imagino numa floresta onde encontro com mulheres, lobas, leoas, hienas, fêmeas de elefante, e tantas outras. Cada ser feminino, numa forma de comunicação sem palavras, narra as nuances da força da natureza dentro do próprio corpo. Não há o que temer. A natureza fará o trabalho de parto através de mim, e nenhuma regra social será capaz de invadir esse campo minado de hormônios e amor à flor da pele. 
Mais tarde, antes de dormir, agradeci poder estar com as minhas amigas neste momento único da minha vida. Então agradeci também a visita dos gringos! A vinda deles deu-me coragem para externar um desejo íntimo, de estar cercada de mulheres amigas, que talvez tivesse ficado reprimido, sem a devida oportunidade de ser revelado. Tudo faz sentido! 



31 de julho de 2015
37 semanas e cinco dias  
Os amigos gringos foram embora. Voltei para casa confiante e orgulhosa de mim mesma por ter me respeitado, ao invés de ceder só para agradar. 
Obviamente meu marido e eu tivemos que conversar de novo sobre a minha decisão de passar uns dias fora de casa nesse momento de reta final da gravidez. 
Revelei-lhe a importância da minha decisão; contei-lhe também sobre a conversa com as amigas e sobre o que as fêmeas das florestas me desvendaram. 
Graças aos céus, nós nos entendemos como de costume, porque basicamente escolhemos nos entender, por mais que tenhamos discordado. Ele respeitou a minha vontade até quando essa ameaçou os nossos acordos iniciais de estarmos lado a lado durante toda a gravidez, assim como respeitei a sua vontade de receber os amigos, naquele momento. 
Estou em paz comigo, com a minha mente e com o meu amor. Em paz, é natural sermos mais generosos e partilharmos mais gratidão! 
Fomos à praia e nos deliciamos na água do mar! No mar, agradeço por tudo que temos vivido juntos e vislumbro uma semana de ocitocina natural correndo pelas veias. 
Tememos tanto o incontrolável na vida. No entanto, provavelmente é esse fator que a deixa mais interessante! 



01 de agosto de 2015
38 semanas e quatro dias 
No encontro de grávidas desse mês, o assunto em pauta foi o parto domiciliar. Ouvi relatos de mães, pais e grávidas a respeito do assunto. É interessante observar como ao estudar sobre parto, as pessoas apaixonam-se pela ideia de parir naturalmente, sem intervenções desnecessárias.
Nesse encontro, conheci uma jovem enfermeira obstetra, que havia participado de partos de algumas das depoentes. 
Em conversa com ela, fiquei entusiasmada com a hipótese de ter filho em casa. Sem compromisso, essa enfermeira sugeriu que eu conversasse com a assistente dela também, para marcar de conhecê-la e avaliar melhor a hipótese do parto domiciliar. 
Antes de me passar o número de telefone da enfermeira assistente, ela olhou bem para minha barriga e disse: 
- Você deve estar sentindo... Você está prestes a parir.
Em razão desse comentário, marquei com a outra enfermeira obstetra um encontro para segunda-feira, às nove da manhã, para nos encontrarmos também com o meu marido e conversarmos sobre a hipótese de parir em casa. Além disso, marquei consulta com a minha médica para saber se ela aceitaria ficar à disposição, caso o trabalho de parto fosse interrompido por algum motivo e eu tivesse que ir para o hospital. 
Em casa, quando conversei com o meu marido sobre o assunto, ele me garantiu que, em qualquer circunstância, onde quer que seja, ele estará ao meu lado. 
Então, tomarei a decisão de onde parir segunda-feira, depois de conversar com a enfermeira obstetra assistente e com a minha médica. 




02 e 03 de agosto de 2015
38 semanas e cinco dias 
Hoje é o primeiro domingo depois da entrada de uma lua cheia, que nos deixou   de pescoço doído de tanto admirá-la! 
Pela manhã, depois do café, convidei meu marido para fazer uma caminhada na praia de icaraí. Senti vontade de dar uma volta ao mundo a pé, mas não aguentei mais do que os poucos quilômentros que margeiam a praia de Icaraí, em Niterói. Tomamos uma água de côco e, em seguida, voltamos para casa. Ele queria marcar um almoço com os amigos, eu estava sem ânimo para isso. Almoçamos só os dois. 
À tarde, meu marido foi à Itaboraí pagar o caseiro do sítio da sua família, enquanto preferi ficar em casa, dormindo. Dormi a tarde quase inteira. No final da tarde, quando ele voltou, eu estava escrevendo o diário, que excepcionalmente teve o seu rito matinal interrompido por algum estranho comando do corpo; embora eu tenha levantando cedo para escrevê-lo como de costume, simplesmente cochilei inclinada sobre a mesa, com o rosto por cima dos braços entrelaçados sobre o caderno de anotação. 
Antes de começarmos a fazer a janta, meu marido perguntou se poderia convidar uns amigos para jantar em casa. 
- Hoje acho que não seria bom - respondi sem saber exatamente o porquê. 
Jantamos arroz com feijão e escondidinho de queijo coalho. Repeti. Meu apetite  raspou o prato e, sem cerimônia, também as panelas. 
Depois do jantar, por volta das 21 horas, sentei para ler, recostada na cama, e, somente depois de ler alguns capítulos, senti que o sono hesitava em se aproximar; o corpo parecia em vigília. 

23:00 (vinte três horas)
Meu marido, que também lia ao meu lado, deitou-se. Ele dormiu imediatamente. Eu, não. Mas deitei, como se fosse dormir.
Senti uma cólica intermitente; mudei de posição, de um lado para o outro. Não adiantou. Eu me sentei para meditar. Enquanto estava sentada, a cólica desaparecia. Deitei novamente, e a cólica voltou, para, em seguida, ir embora. Levantei para pegar um almofadão e por nas costas, para evitar ficar completamente na horizontal. Por via das dúvidas, resolvi enviar um WhatsApp para a minha doula para lhe falar sobre essa cólica. 
- Será que o baby está querendo vir? As cólicas são longas ou curtas? - perguntou a doula. Eu não havia contado ainda a duração. Esperei a cólica voltar para responder. 
- 30 a 40 segundos - acho.
- Quando quiser que eu vá praí, avisa. Mas não fica monitorando as contrações não, viu? Tenta só deixar fluir. Quando estiver na hora de me chamar, você vai saber - foi a mensagem da doula.
- O bebê ainda muda de posição, ora lado direito, ora lado esquerdo... É normal? - perguntei.
- O bebê vai se ajeitando pra encontrar o caminho. Toma um banho morno antes de deitar. Ajuda a relaxar o corpo pra conseguir descansar. Qualquer coisa, estou aqui. Bom descanso. 
Tomei um banho morno e deitei no almofadão que improvisei na cama. Antes de ir dormir, olhei as horas. 
02:00 (duas horas da madrugada)
Senti vontade de ir ao banheiro. Depois que fiz xixi, observei que saiu um pouco de muco. Tirei uma foto e enviei para minha doula, que confirmou se tratar do tampão mucoso. Ela me perguntou se eu consegui dormir. Expliquei que dormi sentada. Ela riu e me pediu que a avisasse quando eu quisesse que ela viesse para minha casa e enfatizou que a chamasse, caso a bolsa rompesse ou caso as contrações se intensificassem.  
Eu estava tranquila e lhe disse que ia tomar uma banho morno novamente. 
Antes de ir ao banheiro, resolvi comer algo. Não houve tempo, pois vomitei um pouco. Não ia mencionar isso a minha doula, porque imaginei que não havia importância. Porém, enviei uma mensagem, contando que ia comer mas que acabei vomitando antes.
- Estou indo praí - a doula respondeu imediatamente.
- Por quê? - perguntei sem acreditar que estava em trabalho de parto.
- Os vômitos costumam aparecer antes do bebê descer. Pode ser alarme falso, mas na dúvida, prefiro ir. 
Insistir que o bebê estava no alto da barriga ainda. Ela não se deixou levar pela minha impressão. “Se estiver alto, volto para casa. Não tem problema nenhum.”
03:00 (três horas da manhã)
Antes que ela chegasse, acordei meu marido e lhe expliquei o que estava acontecendo. Ele deu um pulo da cama e foi para sala organizar um pouco a nossa bagunça, antes da chegada da doula; e eu fui direto para o chuveiro e fiquei de baixo da água quente.
04:00 (quatro horas da manhã)
Rapidamente a doula chegou, essa foi a minha impressão, como se ela tivesse surgido em alguns segundos dentro do banheiro, para medir o batimento cardíaco do bebê. 
- O coração está ótimo. O bebê está baixo e já encontrou o caminho! Vamos para o hospital?
Posso considerar que esse dia foi o dia no qual estive mais presente. Eu estava inteiramente ali, sem temor; eu estava cercada por algo que só posso descrever como um bolsão de instinto. 
Fiquei imóvel. Então escutei uma voz. Não era aquela voz mental, que nos instiga dúvidas e medo do que pode acontecer. Era uma voz arterial, viva e fresca, falando dentro de mim. Aquela voz que, num momento decisivo, fala suave e nos diz o que fazer. “Em casa.”, foi o que ouvi. Tranquilamente expirei entre as contrações e respondi: - em casa! 
A doula respeitou a minha vontade, sem me recriminar sob qualquer aspecto. Ela simplesmente acatou o meu pedido, dizendo que ligaria imediatamente para as enfermeiras obstetras.
A enfermeira obstetra, que eu havia conhecido na véspera, no encontro de grávidas, realmente disse que eu estava prestes a parir. No entanto, eu não contava com o fato de entrar em trabalho de parto justo no dia seguinte da conversa, que tive com ela. 
Mas a vida adora nos surpreender, ora dando navegando em mares tranquilos, ora nos lançando numa montanha russa de emoções! De modo que a enfermeira assistente conheci no dia do parto mesmo. Não me importei com o fato de não conhecê-las bem. No fundo, eu sabia que ia parir, e parir é um ato involuntário (desde que não seja drasticamente interrompido, acredito). 
Então, no trabalho de parto, enquanto continuava debaixo do chuveiro, sob a água mais quente possível, eu não tinha pressa. Eu queria estar ali, participando da minha festa hormonal, sentindo cada comando do corpo. Mente e corpo unidos, como sempre deveria que ser! A mente a serviço do coração e do corpo. Eu me posicionava conforme esse comando. 
Não sei o que se passava do lado de fora do banheiro. Soube mais tarde que meu marido foi para cozinha preparar uns quitutes para a doula e enfermeiras, depois de arrumar a casa, que estava uma bagunça, em razão da recente mudança que havíamos feito, da casa recém reformada, para aquele pequeno, porém aconchegante apartamento.
04:40 (quatro e quarenta da manhã)
As enfermeiras trouxeram todo um aparato para eventuais imprevistos e se revezavam, auscultando o coração do bebê, enquanto eu continuava debaixo do chuveiro. Só saía de baixo da água quando sentia vontade de ir ao sanitário, ou quando uma das enfermeiras entrava para conferir o batimento cardíaco do neném. 
Deixei claro que se o coração do bebê indicasse cansaço ou qualquer mal estar, eu iria imediatamente para o hospital e me submeteria a uma cirurgia cesariana, se fosse necessário. 
- O coração do bebê está ótimo! - disse a enfermeira obstetra. 
Apesar daquele turbilhão físico de sensações, eu não pensava que estava demorando nem desejava que passasse rápido; eu queria vivenciar cada momento. O agora era o lugar que eu queria estar. Provavelmente pela primeira vez em muitos anos, o constante diálogo mental deu uma trégua. Eu estava inteira e presente.
Logo que a doula chegou, antes mesmo das enfermeiras estarem ali, ela encheu uma bola grande de exercício e me deu para que eu sentasse nela durante as contrações, enquanto deixava a água do chuveiro aquecer as minhas costas.
Foi de grande valia para o meu relaxamento. 
Segundo o meu marido, a doula trouxe uma bolsa, que guardava uma simpática semelhança com a da Mary Poppins. De lá saíram bola de exercício, banqueta e uma banheira inflável. 
Eu já não tinha noção do tempo. Para mim, parecia que o trabalho de parto havia recém começado.  Algum tempo depois, não faço ideia de quanto tempo depois, a minha doula entrou no banheiro, ofereceu-me a banqueta e voltou para sala. 
Ao me sentar na banqueta, comecei a emitir o som ahhhhh do yoga, fazendo pressão no baixo ventre; repeti o exercício algumas vezes; senti que a pressão aumentou e houve a protuberância de algo na vulva; passei a mão e olhei para a minha doula, que havia entrado no banheiro novamente. 
- Sentiu alguma coisa? A cabecinha do neném? - perguntou ela. 
- Não... A bolsa - respondi com uma alegria, que sinto até hoje quando me lembro desse episódio. Pedi que meu marido entrasse para tirar uma foto; eu queria ver a protuberância da bolsa. Meu marido foi buscar a sua máquina fotográfica mais potente, cheia de minúcias, que não funcionou nem com reza. 
- Pegue o iphone mesmo! - pedi. E “click”... A foto saiu escura e nós rimos muito. 
O banheiro do apartamento não tem mais do que quatro metros quadrados. Nesse momento, estávamos no banheiro eu, sentada na banqueta com os braços pendurados no pescoço da minha doula, que estava em pé, ambas dentro do box, uma das enfermeiras, ao lado do box, e meu marido com a carinha na porta, entre-aberta. Eu sentia uma necessidade de ser puxada pelos braços pra cima. 
Não me recordo quanto tempo depois de estar sentada na banqueta, anunciei: 
- Aqui não vai ser possível. Estou com falta de ar. Quero ir para a banheira. Ela está pronta? - perguntei, em seguida.
- Está pronta, mas ainda precisa de mais água morna. Aguarde um pouco - respondeu a doula.
Permaneci no banheiro, debaixo do chuveiro a cada contração. Senti vontade de ficar de quatro e me posicionei desse modo. Logo em seguida, a minha doula trouxe o meu tapete de yoga para o banheiro, e, pude ficar de quatro, sem machucar os joelhos.
Somente algum tempo depois, andei até a sala, onde todos estavam. Percebi uma movimentação ruidosa e pedi que não fizessem muito barulho para os vizinhos não reclamarem.
- Os vizinhos já saíram para trabalhar. Que horas você pensa que são? Quanto tempo você acha que ficou no banheiro? - perguntou o meu marido. 
Olhei para a janela da sala, buscando uma pista, mas ele havia posto um lençol para manter a nossa privacidade. 
- Quarenta minutos? - lancei. 
Pela expressão facial dele, a minha percepção de tempo devia estar realmente fora de compasso. Então, fiquei um tanto surpresa no momento seguinte quando ele finalmente respondeu as próprias perguntas: 
- Deve ter umas cinco horas que você está no banheiro. Já passam das sete da manhã.
7:30 (sete e meia da manhã)
Enquanto eles terminavam de encher a banheira, voltei para o chuveiro de água quente e lá fiquei. Meu corpo queria continuar de quatro e obedeci. Sentia uma espécie de transe. Permaneci naquele silêncio, que permite uma conversa mais íntima. Neste agora, somos dois e somos um.
Não sei quanto tempo depois, anunciaram que a banheira estava ao meu dispor. Lembro até hoje o prazer que sentir ao entrar naquela água. 
- Por que não vim antes? - perguntei. Nesse momento, meu marido estava sentado do lado de fora,  enquanto eu me segurava no pescoço dele, de dentro da banheira e na posição de cachorrinho, emitindo o som “aaahhhhh” a cada contração. 
Algum tempo depois, senti uma quentura, fora do comum, na vulva e uma excitação até a medula. Então, falei alto e em tom sério: 
- Aaaahhhh... Estou sentindo... quente... uma bola quente!
- É o círculo de fogo - disse a minha doula calmamente. O círculo de fogo é sentimento de queimação, que acompanha o esticamento do períneo, para a descida do bebê. 
No meu plano de parto, eu havia pedido que ninguém me tocasse. Eu sabia que ia parir, e o toque fosse qual fosse poderia me desconcentrar. Mas senti alguém mexer no meu períneo. 
- Ninguém mexe aí! - reclamei, continuando de quatro, com o quadril acima do nível da água. 
- É a cabecinha do seu bebê já do lado de fora, não baixa mais o bumbum! - disse a doula. 
Nesse momento, percebi que meu medo estava ali, querendo assumir alguma função. Não disse nada a ninguém, porque não queria, sob hipótese alguma, mencionar a palavra medo em voz alta. 
O bebê não desceu de imediato, possivelmente porque o medo deve ter provocado algum efeito no ritmo das contrações. Sentia o silêncio dentro e fora de mim. Balbuciei algumas palavras, mas essas me saíram trêmulas e inaudíveis.  Quase me perdi de mim. Não sei como consegui novamente me conectar com o lugar mais calmo do meu íntimo. Sei apenas que, mantendo os olhos fechados, respirei feito uma criatura selvagem. 
- Isso, querida - disse a minha doula em tom quase inaudível. Ela deve ter feito sinal para que o meu marido entrasse na banheira. 
Em seguida, ouvimos os primeiros sons (tosses e espirros) do bebê cuja cabeça estava para fora, enquanto o corpinho continuava dentro de mim. 
Esses sons, que aos meus ouvidos formaram uma canção amorosa, foram suficientes para me capturar no transe novamente e seguir escutando os comandos do corpo. Como pude, por alguns segundos, duvidar da natureza?
Veio mais uma contração, mas o bebê não saio por completo, permanecendo com as pernas dentro de mim, enquanto meu marido o segurou, com a assistência das enfermeiras, que cuidadosamente retiraram uma circular de cordão ao redor do pescoço do bebê. 
9:20 (nove e vinte da manhã)
Sem alarde as enfermeiras desfizeram uma outra circular de cordão na altura da barriguinha, enquanto o meu marido segurava o bebê. Foram necessárias mais algumas contrações, até a saída completa daquela deliciosa bola de fogo. 
Assim que o bebê saiu, as enfermeiras o enrolaram numa toalha, não sendo possível ver o sexo.
Eu ainda estava de quatro e somente alguns segundos depois pude virar de frente e me sentar e senti-lo no meu colo, com o meu marido ao meu lado na banheira. Eu não havia imaginado como o parto seria, na prática. A experiência superou qualquer expectativa que eu tivesse inconscientemente. Sem que eu soubesse, e, para minha sorte, uma das enfermeiras filmou e fotografou o parto. 
Com o bebê no colo e, ao mesmo tempo, ligado a mim pelo cordão umbilical, meu marido disse ao meu ouvido: “Você realizou um sonho meu!”. 
Ficamos ali sentados, segurando o amor que fizemos. Eu não pensava em nada. Não tínhamos pressa e ali era o único lugar onde desejávamos estar. Que paz amorosa! 
Não fazíamos ideia de quem segurávamos. Aquele ser estava ali entregue a nós e já nos olhava com curiosidade, emitindo os seus primeiros sons.
- Quem viria ali? - eu me perguntei. Certamente alguém que nos ensinará tudo que nos falta aprender. Passamos de professores a alunos numa fração de segundos. Mais uma vez a magia da vida mostra a sua graça. Uma nova jornada começa e tudo é festa.   
Vejo o mundo como uma grande festa. Sei que alguns se sentem mais convidados do que outros, alguns vão embora na porta porque se comparam e acham que estão inadequados, outros acham que não foram convidados porque não receberam um convite formal, e, acabam não participando da festa única, que é a vida. Por mais que eu tenha perdido o convite, ou que a roupa não esteja apropriada, vou entrar e vou dançar até os pés calejarem, porque foi assim que a minha mãe me ensinou a fazer. “Aqui em casa ninguém pode ter complexo, senão vamos perder a festa.”, foi o que cresci ouvindo da minha mãe. Pretendo transmitir à nossa cria essa mensagem e lhe mostrar que o mundo é um lugar de aventura e descobertas, mas que é preciso coragem para desbravá-lo, desde o nascimento até a morte, para vê-lo, admirá-lo e louvá-lo.  
Emocionados e agraciados pelo momento que estávamos vivenciando, finalmente, tiramos a toalha.
- É uma menina! Uma menina! - dissemos em voz alta meu marido e eu. - Seja bem-vinda ao planeta Terra - complementou o meu marido.
- Oi, meu amor! Nós conseguimos! Você, lá no fundo, já sabe a força que tem, e, que você pode aprender a chegar onde você quiser! Seja bem-vinda ao nosso lar! - foi o que lhe disse em silêncio, se me lembro bem. 
Quantos desafios posicionam-se imediatamente após o nascimento de uma garota. Ela não imagina. 
Para nós pais, destaca-se o claro desafio de criar um ser humano. Não sei como faremos ainda. Sei dizer que esse tesouro despertou em mim um novo calor de percepção e amor para tudo o que via e passei a ver. Em um instante, o mundo tornou-se mais colorido. Não imaginava que o mundo ia melhorar, de um segundo para o outro. De novo a atuação da magia da vida!
Diante desse momento particular de amor e beleza, aguardamos o cordão parar de pulsar naturalmente, para depois cortá-lo, conforme previsto no plano de parto. Meu marido o fez com o auxílio das enfermeiras. Não contive as lágrimas, agradeci o trabalho de todas e confessei: “adorei parir”. 
Nós mulheres temos o privilégio de termos mais contato com o corpo interior e com a inteligência do organismo. O trabalho de parto demonstra que estamos mais sintonizadas com o mundo natural. 
Permanecemos sentados, aguardando o nascimento da placenta, que não saiu imediatamente. Nesse meio tempo, a doula pediu o bebê para pesá-lo ali na sala mesmo, e meu marido levantou-se para ajudá-la e ver o peso. Em seguida, meu marido perguntou se eu precisava de alguma coisa.
- Preciso de um açaí! - respondi. Permaneci na banheira, aguardando a saída da placenta e tomando um açaí, que ele preparou, enquanto ligava entusiasmado para nossa família.
- Eu sabia - disse a minha mãe ao ouvir a notícia. - Sentimento de mãe não se engana. Pode olhar no celular dela, liguei há pouco. 
Meus pais ficaram, como todo mundo, bastante surpresos quando meu marido disse que estávamos em casa, em razão de a nossa filha ter nascido ali mesmo. 
Mais tarde, quando liguei para minha mãe, ela agradeceu por não ter lhe contado nada sobre a minha decisão de parir em casa. 
- Eu ficaria nervosa se soubesse, porque não é mais costume parir em casa - disse ela, em tom amoroso. Ela disse também que me admirava e que eu sempre dava um jeito de surpreendê-la. Contei-lhe como havia sido o parto. - Eu sabia que você ia conseguir! Escreva tudo, porque um dia a sua filha vai te perguntar; e é comum esquecermos os detalhes -  ela enfatizou.
Para a mãe do meu marido, só pude contar mais tarde. Escrevi-lhe outra carta, dizendo que ela era avó de uma netinha. Sinto, no fundo do coração, que ela se alegrou com a boa nova. 
Mas antes disso, enquanto eu ainda estava na banheira, aguardando a placenta nascer, as enfermeiras obstetras disseram que, se a placenta não saísse logo, eu teria que tomar uma injeção de ocitocina. Nem preciso dizer que me arrepiei da cabeça ao pés ao ouvir aquilo; foi notório. É óbvio que eu seguiria o comando das enfermeiras. Entretanto, quando elas viram a expressão do meu rosto, complementaram: 
- Mas antes disso, faremos uma massagem na sua barriga!
Senti um alívio incomensurável. Saí da banheira com o auxílio delas e me deitei na cama, que elas já tinham forrado com um plástico e toalhas para evitar sujar o colchão (até desses detalhes elas cuidaram). As enfermeiras e a doula revezaram-se, fazendo a massagem, e pluft: a placenta nasceu! 
Nós decidimos plantá-la no sítio da família do meu marido. 
Aproveitei, que estava deitada na minha cama, e pedi para que as enfermeiras verificassem se houve alguma laceração no períneo. 
- Nada! O períneo está em perfeito estado! - elas constataram. Agradeci mais uma vez. 
Sei que soa estranho dizer que não sentir a dor insuportável que está no imaginário das pessoas, quando se fala em parir. Mas foi o que me aconteceu.
No meu caso, durante o trabalho de parto, voltei a minha atenção para a respiração e para os comandos do corpo, talvez por isso a palavra dor não tenha encontrado espaço, ou talvez porque dor, para mim, esteja ligada à perda. 
Além disso, as nossas crenças têm um poder muito forte sobre o que sentimos. Eu havia lido que a ocitocina é o hormônio do prazer, sendo também o hormônio do parto, enquanto a adrenalina é o hormônio consequente de uma reação inesperada e temerosa. A adrenalina e a ocitocina não atuam ao mesmo tempo. Para um desses hormônios funcionar, o outro tem que sair de cena. Se o ritual do parto for respeitado, a adrenalina não entra em campo, e a ocitocina impera a todo vapor. Com isso passei a acreditar que é possível sentir prazer em parir. Foi a primeira habilidade que aprendi, como mãe: transformar aquelas sensações em prazer. É uma transcendência, acredito. 
O trabalho de parto me levou além de mim mesma. Foi tão poderoso. Eu fiquei impressionada com o que o corpo é capaz de fazer, de aguentar, de persistir. Eu me senti capaz de muito mais do que eu podia imaginar. Esqueci que estava diante das enfermeiras, que acabara de conhecer. Esqueci as perdas e o medo. Esqueci até que tudo tinha que dar certo, caso contrário, eu teria que ir para o hospital.
Muitas de nós nos perguntamos qual é a nossa missão na Terra. Dentre as inúmeras, podemos dizer que transcender é uma delas. Ao assumirmos o nosso protagonismo na sociedade, no trabalho, no parto, na vida, estamos transcendendo. 
- Qual é o melhor parto possível?
Não há uma receita para fazer essa escolha, a não ser informando-se, observando, de perto, o que acreditamos, revendo o que realmente precisamos, ouvindo a história de outras mulheres, e, sentindo que não estamos sozinhas.
Não pretendo aqui pregar que o parto natural e domiciliar deva ser seguido por todas as mulheres. Para se optar por esse parto, é necessário estar em harmonia com a segurança interna e blindada com relação aos comentários e advertências de pessoas, que estão vinculadas a sentimentos de medo e culpa. 
No nosso íntimo, lá dentro mesmo, onde só nós podemos entrar, sabemos o que é melhor para nós mesmas e podemos escolher no que acreditar. 
Ao longo desses nove meses, exercitei bastante a lista do que acredito e observei que só sinto medo de eventos que não ocorreram, e, que numa situação complexa e real, o medo não me domina, mas sim a coragem de enfrentar o que seja.
Sei dizer que, para mim, o melhor parto possível foi o parto domiciliar decidido no momento em que eu me senti em mim, indelével. Para outras mulheres do grupo de grávidas, foi o parto humanizado no hospital. Para outras mulheres, a cirurgia foi a melhor opção (ou a única), e todas nós acertamos o caminho por onde precisávamos percorrer para fazer essa escolha.
Portanto, se você quer fazer uma escolha consciente, informe-se, não delegue a ninguém escolhas que devem ser suas e seja a heroína da sua própria história. Nós precisamos da sua experiência; é importante contar a nossa versão da história, porque como diz um provérbio africano “Até que o leão aprenda a escrever, toda história irá glorificar o caçador”(provérbio original: “Until the lion learns to write, every story will glorify the hunter"). Neste momento, não estou fazendo referência somente à escolha do parto, estou falando das escolhas diárias, que moldam a vida que pretendemos levar, estou falando de escutar a nossa própria voz e fazer com que ela seja ouvida. Esse ato pode mudar o curso da nossa história e da história de outras mulheres. Muitas de nós não fazem ideia da força que temos! 

Esse pode parecer o fim, mas é início de uma nova jornada.